A História conta: gatos e humanos têm uma relação mais profunda do que imaginamos

Enquanto acaricio o pelo cinza-azulado de Cesar – meu chartreux mestiço de 11 meses – penso no quanto a adoção de meus gatos ajudou a me transformar em uma pessoa melhor. Nessa evolução individual, analiso que hoje sou alguém mais empática amorosa e altruísta. E isso tem sua lógica: as condições em que adotei meus bichanos – que estavam em situação de rua – e junto a isso, o desafio de curá-los, a dedicação com os remédios e tratamentos caros que dependiam da ajuda de outras pessoas (conselhos, palavras de consolo, troca de experiências, tratamento quando estava ausente por trabalho…), enfim. O amor foi crescendo junto com o peso da responsabilidade, e agora que penso bem acho que toda essa experiência transformou nós três: o César está superando seu medo dos humanos, está mais carinhoso e companheiro, e o Boris anda mais confiante, brincalhão e saudável. Observo que todos nós precisamos um do outro e, ao mesmo tempo em que meus dedos deslizam através do pelo lanudo de Cesar, reflito quando gato e homem descobriram que a companhia um do outro seria prazerosa. Mas quando isso ocorreu? Em quais condições? Fiquei surpresa ao descobrir que tudo foi por causa da agricultura!

 

Revolução agrícola e o possível início da relação entre homem e gato

 

De acordo com registros arqueológicos e escritos do antigo Egito, sabe-se que a domesticação dos bichanos ocorreu há pelo menos três mil e quinhentos anos. Embora haja a especulação de que essa relação seja mais antiga, os cientistas afirmam que é difícil datar exatamente a transição do gato selvagem para o gato domesticado. A única certeza é de que a domesticação é posterior à revolução agrícola.

Para facilitar, trarei um fato familiar: gatos em ambientes rurais e seu uso onde existem grãos estocados. Todos nós já escutamos alguma vez (de um parente, amigo ou conhecido) sobre o problema de ratos no paiol – lugar onde se armazena grãos – e que, nesses casos, os gatos são importantíssimos para proteger a colheita e minimizar prejuízos. Traçando um paralelo ao Período Neolítico, quando o homem deixou de ser predominantemente caçador para cultivar a terra – criando a agricultura –, o problema era justamente o mesmo. Isto é, ao estocarem grande quantidade de grãos em depósitos, uma grande população de ratos se viu atraída pela abundância de comida. Não muito diferente de hoje, naquela época o homem não conseguia exterminar as ratazanas facilmente, sendo um desafio muito grande. E foi nesse cenário de luta entre homem e rato, que surgiu o melhor controlador de pragas de todos os tempos: o super ronrom!

 

Mas não nos iludamos, galera. Os gatos apareceram nesse ambiente de comida estocada porque a natureza é muito sábia, pensem comigo. Uma infestação de ratos bem nutridos era literalmente um prato cheio para os gatos selvagens! Principalmente, porque no ambiente selvagem a comida não era abundante, e, além de precisarem competir com outros gatos e indivíduos de outras espécies, os gatos precisavam se proteger de seus predadores. Logo, o paiol com presas gordinhas era uma espécie de passe livre na melhor churrascaria da cidade. E o círculo vicioso grãos-ratos-gatos foi benéfico ao homem, pois o consumo do estoque era notadamente reduzido com a presença dos gatos. E esta é a vidência da domesticação dos gatos, pois vendo as vantagens de se ter um gato, o homem passou a criá-los e a mantê-los em um ambiente junto aos humanos.

 

Transição felina: de caçadores a animais sagrados e malditos

 

Toda a tecnologia a qual estamos imersos, talvez nos impeça de imaginar o impacto dos gatos nos primórdios da agricultura. Civilizações antigas como a egípcia ajudam a mapear as relações entre o homem primitivo e o felino.

Os egípcios são um exemplo de civilização que tinha uma enorme estima e consideração por seus gatos. Eles eram considerados uma divindade, a ponto de terem uma deusa-gato chamada Bastet. Um dado curioso era a morte de um gato. Quando isso ocorria de forma natural, todos os membros da casa declaravam seu dolo rapando as sobrancelhas. O bichano ainda tinha direito a uma cerimônia fúnebre com o corpo embalsamado, envolvido com vendas de diferentes cores, e seu rosto era coberto por uma máscara esculpida em madeira. Alguns eram colocados em ataúdes de madeira – com forma de gato – enquanto outros, em palha trançada. Eram enterrados em cemitérios próprios, onde havia milhares de gatos.

 

O apogeu dos gatos foi longo. De sagrado, passaram a ser tratados como malditos na Idade Média, onde viveram o período mais trágico de sua história. Por estarem envolvidos nos primitivos rituais pagãos praticados pelos egípcios, os gatos foram proclamados como criaturas maléficas, agentes de Satanás, companheiros das bruxas e causadores de má sorte. Por causa dessa injusta fama, foram perseguidos pelo Cristianismo, vivendo vários séculos sob tortura e morte, o que reduziu o número de sua população.

Observando o Cesar e o Boris – que acabara de chegar -, fiquei visualizando todas essas transições históricas pelas quais os gatos viveram e sobreviveram. Apesar das loucuras humanas que ainda persistem, os gatos souberam sobreviver e evoluir. E desde que se aproximou do homem, nunca mais o deixou.

 

Fotos: Jupter Photo Gallery/ Getti / Museu Britânico

 

 

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